“Toda grande reportagem ou documentário nasce de uma pergunta, de uma inquietação”, afirma Bianca Vasconcellos
- 23 de fev.
- 6 min de leitura
A escritora e jornalista premiada encerrou o ciclo de seis aulas do curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo 5, do Projeto Repórter do Futuro. O celular como aliado na produção audiovisual também foi destaque durante o encontro.
Por Thaís Manhães.
No último sábado, 7, Bianca Vasconcellos, jornalista premiada por suas produções audiovisuais e que atualmente lança o romance biográfico “Morro Doce”, pela editora Fósforo, conversou com a turma do módulo Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo 5. A aula concluiu a série de seis encontros do primeiro ciclo do módulo sobre jornalismo e audiovisual oferecido pelo Projeto Repórter do Futuro.
Na aula, Bianca trouxe exemplos de como usar a criatividade a favor de uma produção organizada e realista em relação aos recursos financeiros e humanos. Para ela, o modo como essa história pode ser contada é um diferencial capaz de convencer o espectador a acompanhar a obra até o fim: “Pensar sempre em algo diferente, que não seja mais do mesmo. Isso, junto com a pergunta, é o ponto de partida. O que eu quero saber, o que vou investigar e como isso será narrado de forma que não seja mais do mesmo?”.
Neste contexto, ainda, a jornalista mostrou alguns exemplos práticos, dentre eles o seu documentário “SerTão” (2019, ainda não finalizado), cuja concepção nasceu da pergunta “Como é ser transexual na terra de Lampião?”.
A aula foi guiada por um documento orientador contendo um passo-a-passo para pensar a criação de um produto audiovisual, incluindo reflexões sobre os modos de narrar fatos reais. Ao longo do encontro, Bianca abordou formatos para além do audiovisual mais tradicional, como a reportagem e o documentário, e ampliou o olhar para uma habilidade humana que nos acompanha desde a época das cavernas: contar histórias.
Fotografias, quadrinhos, cartuns, poesia, rimas do repente nordestino e músicas, com letras ou instrumentais, foram alguns dos exemplos citados, além dos formatos clássicos, como reportagem em texto, livro-reportagem, podcast e videocast.
Ter consciência técnica sobre cada formato é essencial e, no escopo do curso, com foco em reportagem e documentário jornalísticos, Bianca destacou as diferenças entre os dois. Para ela, enquanto a reportagem tem um prazo de validade, em referência à perda do ineditismo, o documentário é mais atemporal e oferece maior liberdade criativa, além de ampliar as possibilidades de aprofundamento no tema.
“A reportagem envelhece e o documentário é atemporal. O documentário permite liberdade estética, artística e profundidade para explorar a realidade”, afirmou Bianca. Nesse sentido, quem produz precisa ter clareza sobre os objetivos do produto para entender qual é a melhor linguagem a ser utilizada.
Um outro recurso apresentado por Bianca foi o conceito do funil como uma forma de organizar o pensamento na criação de um produto audiovisual jornalístico. A partir dele, é possível definir o tempo da obra e o formato, como um mini documentário, um documentário de maior duração ou uma reportagem. Essas escolhas orientam decisões práticas, como o número de entrevistados e a quantidade de pessoas envolvidas na produção.
O tempo, sobretudo, é uma das primeiras medidas colocadas nesse funil, justamente para evitar que o projeto se torne um oceano de possibilidades não concretas. A proposta de afunilar é fundamental, já que “não é possível abarcar o oceano inteiro em um único filme”, disse Bianca.
Os celulares podem ser grandes aliados na realização de um filme. O pequeno aparelho que levamos para cima e para baixo no bolso, na mochila ou na bolsa é uma possibilidade quando se fala em produção audiovisual de baixo custo. Com preços mais acessíveis, além de mais leves e fáceis de transportar quando comparados ao equipamento técnico profissional. Bianca citou como referência o longa-metragem “Tangerine” (2015), o primeiro a chegar às telas de cinema gravado inteiramente com celular, com um orçamento reduzido em comparação a outras grandes produções cinematográficas.
Na esfera da produção jornalística, bastante adepta do uso do celular em suas obras, sejam reportagens ou documentários, Bianca indicou algumas produções realizadas com esse recurso. Entre elas está “A falta que você faz”, produção dela para o programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, gravada com câmeras profissionais, mas editada no celular por meio do aplicativo 8mm Vintage Camera. Ela também citou o filme “Searching for Sugar Man", gravado com uma câmera Super 8 e finalizado com imagens captadas em iPhone, utilizando o mesmo aplicativo.
Na hora das entrevistas, o uso do celular para a captação é uma vantagem apontada por Bianca: “As pessoas estão mais acostumadas com o celular do que com uma câmera profissional, o que faz com que, em situações como entrevistas, os personagens tendem a se sentir mais à vontade diante do equipamento”.
Bianca Vasconcellos encerrou o ciclo das seis conferências de imprensa desta quinta edição do módulo. Nesta próxima fase, os participantes se dividem em grupos e realizam suas obras audiovisuais, levando consigo todo o repertório acumulado durante as aulas. Os encontros passam a ser individualizados, com acompanhamento dos jornalistas Luana Copini e Oswaldo Colibri Vitta. A proposta desses momentos é oferecer suporte aos estudantes durante o processo de produção.
Ao longo dos meses de fevereiro e março, como uma atividade inédita desta edição do módulo, os estudantes participarão de uma série de quatro oficinas técnicas de produção audiovisual, sendo uma com a documentarista Ana Aranha, duas com o roteirista João Bley e uma com a equipe de produção da Rede Câmara SP. Em breve, serão divulgadas mais informações sobre o conteúdo e a data de cada oficina.
Segundo o cronograma programático, os estudantes devem entregar suas produções finalizadas até 15 de abril deste ano. Vale lembrar que todas as obras produzidas neste módulo serão veiculadas em dois momentos, como parte final do processo formativo do projeto: na segunda edição da Mostra Click de Videorreportagens do Projeto Repórter do Futuro e na quarta temporada do programa Repórter do Futuro, na Rede Câmara de São Paulo.
Visite cada aula através dos textos:
Aqui o cronograma completo desta edição:
Aulas sempre aos sábados, das 10h às 13h: Conferências remotas com os convidados (via Zoom).
Aula 1 e 2: 6 e 13 de dezembro de 2025 - Aldo Quiroga
Aula 3: 17 de janeiro de 2026 - José Roberto Torero
Aula 4: 24 de janeiro de 2026 - Cláudio Kahns
Aula 5: 31 de janeiro de 2026 - Dani Pimenta
Aula 6: 7 de fevereiro de 2026 - Bianca Vasconcellos
15 de dezembro de 2025 a 30 de abril de 2026: Produção das obras audiovisuais + Oficinas livres
Maio a outubro de 2026: Participação no Programa Repórter do Futuro na Rede Câmara (facultativo) e Click PRF - Mostra de videorreportagens do Repórter do Futuro, com lançamento do e-book no auditório da Escola da Cidade (Rua General Jardim, 65, Vila Buarque, São Paulo)
O curso “Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo” é realizado pelo Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão de Políticas Públicas e Sociais (IPFD), em parceria com a OBORÉ e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, fruto de emenda parlamentar do vereador Professor Eliseu Gabriel (PSB).
Sobre o módulo Cinema e Jornalismo:
As transformações cada vez mais rápidas e profundas pelas quais a cidade de São Paulo vem passando nas últimas décadas evidenciam que a tarefa de comunicar as suas realidades, dinâmicas de funcionamento e instrumentos de participação é crescentemente complexa.
Essa velocidade de transformação da cidade e da sociedade vem acompanhada de novas possibilidades de leitura e registro com o avanço tecnológico e a revolução digital. Porém, empreender o mergulho necessário para registrar e documentar as múltiplas realidades paulistanas requer boa preparação prévia, informação qualificada e conquista de repertórios éticos, estéticos e sensíveis, o que pode ser desenvolvido pelo acesso a recursos e narrativas artístico-culturais, em especial o Cinema e os múltiplas formatos audiovisuais que atualmente circulam nas mais diversas telas, mídias e plataformas.
Neste projeto, em sua quinta edição, a proposta é continuar jogando luz sobre as muitas questões que envolvem a vida cotidiana em São Paulo com a ajuda de obras audiovisuais e documentários produzidos e disponíveis na plataforma da SPCine para, em seguida, discutir novas pautas e incentivar novas produções e narrativas jornalísticas e audiovisuais.
SERVIÇO
“Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo” - 5ª edição | 2025
Encontros em formato remoto com atividades de campo presenciais
Vagas: 150
Datas dos encontros remotos: 6 e 13 de dezembro de 2025, 17, 24 e 31 de janeiro de 2026, 7 de fevereiro, sempre aos sábados, das 10h às 13h, via Zoom
Mais informações:
Telefone: (11) 2847.4567 / Whatsapp: (11) 99320.0068
