Projeto Repórter do Futuro discute Jornalismo Cultural Independente
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Dani Pimenta, convidada da quinta turma do curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo, compartilhou sua experiência de mais de duas décadas na cena cultural e na pesquisa sobre Sound System no Brasil. “A documentação é a investigação com tempo”.
Por Thaís Manhães.
No último sábado, 31, Dani Pimenta, DJ, produtora, jornalista, agitadora cultural e pesquisadora da cultura Sound System — marcada pelos paredões de som de alta potência — ministrou a penúltima aula do curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo 5, do Projeto Repórter do Futuro. Projetos culturais, documentário como aliado do jornalismo cultural independente e sustentabilidade financeira estiveram entre os temas abordados durante o encontro.
Desdobramento de Projetos Culturais
Pimenta é uma referência na documentação e registro da cultura Sound System no Brasil. Idealizadora e editora do site independente Groovin Mood, lançado em 2008, dedicado à música jamaicana e seus desdobramentos, entre eles a cultura dos paredões de som de alta potência em território nacional, a jornalista compartilhou um olhar atento sobre a viabilização de projetos culturais.
Especialista em um campo bastante específico, Pimenta destacou a importância de pensar os possíveis desdobramentos de um produto cultural. Como exemplo, apresentou o Mapa Sound System Brasil de sua autoria, que nasceu em 2015 dentro do seu site. O projeto cataloga a trajetória e a disseminação da cultura Sound System no país e, em 2019, foi transformado em livro homônimo, reunindo registros históricos do movimento nas cinco regiões brasileiras. A iniciativa surgiu de uma inquietação da jornalista sobre quem constrói a cena no Brasil e quais são as motivações desses agentes culturais.
Ao comentar o processo de produção, a convidada destacou a entrevista como principal ferramenta metodológica, ressaltando sua importância para a construção do projeto.
Segundo Pimenta, comunicar a realidade de forma objetiva, fidedigna e humana sobre um tema específico, seja através de um texto, peça audiovisual ou podcast exige o comprometimento com três pilares fundamentais do ofício jornalístico, para além do cuidado para não reforçar estereótipos: ética, escuta e responsabilidade.
“Eu escuto a cena e as pessoas, eu quero ouvir o que elas têm para dizer, eu vou entrevistá-las, conversar com elas, querer saber o que elas estão fazendo para entender o que eu vou levar para o meu leitor”, disse a jornalista que também é pesquisadora da cultura Sound System na Goldsmith University, em Londres.
Ao refletir sobre a relação entre documentário e jornalismo na cobertura de uma cena cultural, Dani citou a série documental Peleja. Um dos episódios aborda a conexão entre a torcida do Sampaio Corrêa Futebol Clube, do Maranhão, e o reggae, ritmo que estrutura as manifestações da torcida. O exemplo evidencia como uma mesma cena, o reggae, pode se desdobrar em diferentes manifestações, como o futebol, ampliando as possibilidades narrativas e jornalísticas.
Documentar é investigar com tempo, imagem e escuta
Em diversos momentos da aula, Pimenta destacou que a grande mídia, historicamente, não abre espaço para o movimento Sound System. Nesse contexto, defendeu o formato audiovisual documental como uma estratégia para ampliar o alcance do jornalismo cultural independente, especialmente na cobertura de cenas que não encontram visibilidade no mainstream. Segundo ela, esse tipo de jornalismo é uma ferramenta fundamental para a comunicação e a preservação dessas culturas.
“A gente não tem espaço na mídia tradicional, não temos espaço na mídia clássica. Então, temos os repórteres da cena, que nem sempre são jornalistas, mas acabam cumprindo esse papel: documentar como registro, ouvir o que a pessoa está dizendo e traduzir isso para o público”, disse Pimenta referindo-se à abordagem no Brasil.
Assim, Pimenta mencionou o documentário “Uma Breve História Sobre o Sound System", dirigido por Thiago Nascimento e indicado previamente à turma, como um exemplo de ferramenta jornalística voltada à documentação desta cultura. Para ela, dentro da cena em que atua, o documentário se consolidou como uma ferramenta “poderosíssima”, embora essa percepção seja relativamente recente.
“A documentação é a investigação com tempo. A gente usa a imagem e a escuta para registrar essa história toda. O documentário ajuda a ampliar o jornalismo cultural no sentido de construir um registro histórico. Uma pessoa que vai pesquisar a cultura Sound System daqui a vinte anos, irá assistir a este documentário. É um registro”, defendeu Pimenta.
Editais, instituições e marcas culturais
Para quem está no início de carreira, pensar em sustentabilidade financeira pode soar desafiador. Para desmistificar essa questão, Dani reservou a etapa final da aula para apresentar caminhos possíveis de captação de recursos para projetos culturais. “Dá para fazer várias coisas pensando em recursos”, afirmou.
Entre as alternativas citadas estão a busca por editais municipais e estaduais e a formação de parcerias com instituições públicas e privadas, como Sesc, Itaú Cultural, e, no caso de São Paulo, o ProAC (Programa de Ação Cultural). Segundo ela, os pontos centrais na busca por recursos são identificar instituições que dialoguem com a proposta do projeto e encontrar um modelo próprio de estruturação financeira.
No próximo sábado, 7, Bianca Vasconcellos, jornalista e autora do livro “Morro Doce” (Editora Rua do Sabão), encerra o ciclo de seis aulas desta edição do módulo Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo.
Nesta segunda-feira, 2 de fevereiro, os mais de 30 grupos formados por alunos de diferentes regiões do Brasil iniciam os atendimentos individuais com Luana Copini e Oswaldo Colibri Vitta, que auxiliam na produção dos documentários. Para esta edição, estão previstas ainda quatro oficinas técnicas sobre produção audiovisual, que acontecerão ao longo dos meses de fevereiro e março.
Aqui o cronograma completo desta edição:
Aulas sempre aos sábados, das 10h às 13h: Conferências remotas com os convidados (via Zoom).
Aula 1 e 2: 6 e 13 de dezembro de 2025 - Aldo Quiroga
Aula 3: 17 de janeiro de 2026 - José Roberto Torero
Aula 4: 24 de janeiro de 2026 - Cláudio Kahns
Aula 5: 31 de janeiro de 2026 - Dani Pimenta
Aula 6: 7 de fevereiro de 2026 - Bianca Vasconcellos
15 de dezembro de 2025 a 30 de abril de 2026: Produção das obras audiovisuais + Oficinas livres
Maio a outubro de 2026: Participação no Programa Repórter do Futuro na Rede Câmara (facultativo) e Click PRF - Mostra de videorreportagens do Repórter do Futuro, com lançamento do e-book no auditório da Escola da Cidade (Rua General Jardim, 65, Vila Buarque, São Paulo)
O curso “Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo” é realizado pelo Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão de Políticas Públicas e Sociais (IPFD), em parceria com a OBORÉ e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, fruto de emenda parlamentar do vereador Professor Eliseu Gabriel (PSB).
Sobre o módulo Cinema e Jornalismo:
As transformações cada vez mais rápidas e profundas pelas quais a cidade de São Paulo vem passando nas últimas décadas evidenciam que a tarefa de comunicar as suas realidades, dinâmicas de funcionamento e instrumentos de participação é crescentemente complexa.
Essa velocidade de transformação da cidade e da sociedade vem acompanhada de novas possibilidades de leitura e registro com o avanço tecnológico e a revolução digital. Porém, empreender o mergulho necessário para registrar e documentar as múltiplas realidades paulistanas requer boa preparação prévia, informação qualificada e conquista de repertórios éticos, estéticos e sensíveis, o que pode ser desenvolvido pelo acesso a recursos e narrativas artístico-culturais, em especial o Cinema e os múltiplas formatos audiovisuais que atualmente circulam nas mais diversas telas, mídias e plataformas.
Neste projeto, em sua quinta edição, a proposta é continuar jogando luz sobre as muitas questões que envolvem a vida cotidiana em São Paulo com a ajuda de obras audiovisuais e documentários produzidos e disponíveis na plataforma da SPCine para, em seguida, discutir novas pautas e incentivar novas produções e narrativas jornalísticas e audiovisuais.
SERVIÇO
“Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo” - 5ª edição | 2025
Encontros em formato remoto com atividades de campo presenciais
Vagas: 150
Datas dos encontros remotos: 6 e 13 de dezembro de 2025, 17, 24 e 31 de janeiro de 2026, 7 de fevereiro, sempre aos sábados, das 10h às 13h, via Zoom
Mais informações:
Telefone: (11) 2847.4567 / Whatsapp: (11) 99320.0068




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