Cineasta compartilha processo criativo do filme "Era o Hotel Cambridge"


"Era o Hotel Cambridge"(2016). Divulgação

Habitação. Refúgio. Movimentos sociais por moradia. O filme "Era o Hotel Cambridge" passa por esses e por muitos outros temas sensíveis e urgentes da cidade. O drama ficcional de Eliane Caffé lançado em 2016 foi tema de conversa nesta manhã durante o curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo.


Misturar ficção com cenas e uma situação real que ocorre em diversas partes da cidade não era a intenção inicial da cineasta Eliane Caffé. "Ele nasceu com a ideia de ser uma ficção. A questão é que a argamassa dele foi sendo moldada com a interatividade viva das pessoas, na vida das pessoas. Então é por isso que ele tem essa sensação de documentário, também pela forma como o filme foi construído", pontuou a diretora, que participou do encontro e provocou reflexões importantes sobre a função do cinema e do jornalismo no momento atual da sociedade brasileira e do mundo.


"Era o Hotel Cambridge" pode ser enquadrado no que alguns críticos consideram como "Cinema de Causa". A cineasta, porém, afirma que não faz essa divisão entre cinema de arte e cinema de causa. "Às vezes a gente pensa que [é] o cinema como arte ou o cinema como ferramenta política, quase que separando as duas coisas, como se o cinema enquanto arte pudesse ser apolítico ou se entendemos política só como uma atuação partidária, que segue um estatuto… Mas na verdade todo ato é político. O corpo da gente é político", pontuou.


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Caffé afirma que não considera que exista separação entre as duas coisas. No entanto, diz que o que muda é estar consciente ou não dessa postura política dentro do cinema. "Se a gente tem consciência de que a situação está desse jeito, eu vou usar o instrumental da minha profissão, da minha arte tendo consciência. Um filme hoje de R$1 milhão falam que é de baixíssimo orçamento. Se eu vou fazer um filme de um milhão numa zona de conflito, o que significa levar esse 1 milhão ali para dentro?", conta.


O filme narra a experiência vivida em um prédio ocupado no centro de São Paulo. Desde as relações entre os habitantes do local – que se misturam entre brasileiros e refugiados de diversas partes do mundo como Congo e Palestina – até embates com a polícia e uma tentativa de reintegração de posse.


Os participantes do filme são, em sua grande maioria, pessoas da própria ocupação. Destoam desse elenco alguns nomes conhecidos como o caso do ator José Dumont e Suely Franco. Ter atores e atrizes profissionais no longa, inclusive, serviram de apoio para a história que Caffé gostaria de contar. Ela destaca que diferentemente de quem trabalhava profissional com atuação, que tinha domínio sobre decorar um texto e colaborar mais efetivamente com o roteiro, os não profissionais interagiam de uma forma mais distinta e orgânica.



mulher branca de cabelos castanhos com óculos de armação vermelha. atrás uma parede branca e um quadro verde
A cineasta Eliane Caffé em conversa com repórteres do futuro.

"Aquelas pessoas estavam jogando com o repertório delas. A gente dava a situação e eles trabalhavam com o que tinham", explica. A experiência de vida das pessoas que estava filmando contribuía positivamente para o andamento do filme, porque ficavam mais livres para improvisar a partir de uma deixa ou dada situação sugerida pela direção.


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"O importante de ter o roteiro e a vivência do lugar é que quanto mais pesquisa a gente tem antes de ir para o ato do trabalho, mais se consegue ficar livre para improvisar. Se você não tem a pesquisa prévia, dificilmente você será tão criativo. A realidade vai ser tão multifacetada, mas ao mesmo tempo opaca, se você não tem seu roteiro, você não sabe o que está procurando", afirmou.


Ao final do curso os integrantes do módulo vão precisar se dividir em grupos para a produção de um material audiovisual, seja podcast, multimídia, documentários ou curtas. A respeito dessa produção, Caffé incentiva os ouvintes a procurarem as coisas que mais os motivam.


"Antes de sair para fazer qualquer trabalho, o que está movendo vocês? É reconhecimento, é busca de ganhar dinheiro? Que sonho é esse e como estão olhando a realidade para entender se, de fato, esse sonho faz sentido ou se não é uma fantasia", pontuou.

O curso Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo faz parte do Projeto Repórter do Futuro, e é promovido pelo Instituto de Formação, Pesquisa e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) em parceria com a OBORÉ e apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo por meio de emenda parlamentar do vereador Eliseu Gabriel, presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Municipal de São Paulo.


Cronograma Os encontros ocorrem desde 6 de novembro e prosseguem até 29 de janeiro, sempre aos sábados, das 10h às 12h30.

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