top of page

“Se sempre haverá alguma intervenção no ato de fazer documentário, que seja lúcida”, afirma João Batista de Andrade



Estudantes do Projeto Repórter do Futuro entrevistaram o cineasta no encontro de encerramento do 3º módulo Cinema e Jornalismo. Atividade é realizada pela OBORÉ e o Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD), com apoio da Secretaria Municipal da Cultura.


O último encontro do módulo Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo - 3ª edição foi marcado pela presença do cineasta João Batista de Andrade. Os estudantes foram convidados à audição prévia da sua obra Greve! (1979, Documentário, 37 min).


O trabalho do cineasta mineiro de 84 anos sempre esteve, e está, marcado pelo debate político, mostrando, muitas vezes, o que a televisão não queria mostrar. Greve! foi realizado em 1979, em meio ao movimento grevista no ABC paulista. O documentário não só mostrou o contexto político e social da época, mas registrou a ação dos trabalhadores em meio à famosa manifestação que decidiu pela volta ao trabalho após 45 dias de greve na região do ABC paulista, centro dinâmico do movimento operário no Brasil.


“Minha obra, independente de ser ficção ou documentário, sempre está muito ligada ao momento e ao contexto em que está sendo realizada. Eu tenho uma ligação com a política tão grande quanto tenho com a arte e o cinema. Então, uma coisa se relaciona com a outra, ao ponto de eu dizer que cada filme meu é um filme sobre um determinado momento político”, afirma Andrade.


O Povo Fala


João Batista foi um dos precursores e defensores da estética que intitulamos “O Povo Fala”. Crítico ao modelo e uso atual deste tipo de ação, ele garante que há distorções e uma releitura desrespeitosa em comparação ao que era em meados da sua carreira: “Era diferente no meu cinema, nós encontrávamos formas das pessoas se expressarem criticamente. Hoje em dia, usam para manipular as pessoas, muitas vezes de maneira ridicularizante”.


A técnica que, segundo ele, consiste em abrir o microfone e dar voz e espaço às pessoas para que se expressem de maneira autônoma e crítica, hoje é usada como mecanismo de inserção de pessoas em obras, jornalísticas ou não, como ilustradores de ações e editoriais já pensados pelos editores e diretores.


Cinema de intervenção


“Na época, eu fazia um novo cinema, que é até polêmico, porque Jean-Claude Bernardet [teórico de cinema, crítico cinematográfico, cineasta e escritor brasileiro] disse que eu dei o nome, mas eu acho que foi ele. Enfim, ficou marcado como Cinema de Intervenção”, lembra Andrade, caracterizando o termo como um cinema “que consiste em achar que a realidade esconde, que há uma névoa sobre a realidade, que filmar, simplesmente assim, você não revela nada. E que o cineasta tem que ter alguma intervenção e, no meu caso, uma intervenção lúcida na realidade”.


Seu trabalho que inaugurou e refletiu sobre este tipo de cinema é o videodocumentário Liberdade de Imprensa (1967). Para João Batista, não é possível ser isento quando se produz um documentário, uma obra cinematográfica ou jornalística. “Sempre há uma intervenção, mesmo que mínima. A presença do diretor ou da câmera já é uma intervenção”.


Cinema de Intervenção pode ser entendido como um cinema do real, que se caracteriza pela intervenção, social ou política, num determinado contexto histórico. Como no Cinema Militante, ele se caracteriza por uma preocupação em se fazer sentir mais como forma de intervenção social ou política do que como forma de expressão artística, o que em geral confere aos filmes assim designados mais uma validade histórica do que estética.


“O meu cinema está marcado politicamente. Precisamos tirar a névoa da realidade e cada um tem que fazer à sua moda. Hoje, o jornalismo está muito vazio por conta dos detentores do capital e das grandes empresas de comunicação. Sinto muita falta dos cineclubes e dos jornaizinhos de estudantes, de bairro, etc. Hoje tudo ficou nas mãos de uma imprensa preparada, altamente tecnológica e dominante e que não tem compromisso nenhum com essa revelação do que é a sociedade real”, finaliza.


*João Batista de Andrade é escritor, roteirista e cineasta. Iniciou no cinema ainda estudante (de engenharia na Escola Politécnica da USP) em 1963, curso que teve que abandonar em 1964 por causa do golpe militar. Seu primeiro filme, o doc "Liberdade de Imprensa"(1967) traz suas marcas, como "cinema de intervenção" e foi apreendido pelo Exército no Congresso da UNE (1968). Foi secretário da Cultura do Estado de São Paulo e presidente do Memorial da América Latina. Doutor em Comunicações pela Universidade de São Paulo, nasceu em Ituiutaba (MG) e iniciou sua carreira como cineasta em 1963. Tem inúmeros filmes premiados nacional e internacionalmente, como “Doramundo” (1978), “O homem que virou suco” (1981), “O país dos Tenentes” (1987), “O tronco” (1998), “Vlado, trinta anos depois” (2005). E séries para TV, como a atual “100 anos Cultura Conflitos (SescTV/2023).


Cinema e Jornalismo: Luzes sobre São Paulo | 3ª edição - 2023


Esta edição é uma parceria entre a OBORÉ e o Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD), viabilizada por meio de emenda parlamentar do vereador Eliseu Gabriel (PSB/SP) junto à Secretaria Municipal da Cultura da Prefeitura de São Paulo.


A atividade reúne cerca de 100 estudantes universitários e recém-formados de todo o Brasil e tem a proposta de discutir a complexidade cultural, social, econômica, política e urbana da cidade de São Paulo por meio das lentes do cinema e do jornalismo.


No curso, os participantes são convidados a assistir filmes, participar de debates, reflexões e entrevistas coletivas com especialistas sobre as obras cinematográficas e as temáticas nelas envolvidas, além de produzirem, durante o percurso, trabalhos jornalísticos em diferentes formatos e plataformas - textos, vídeos, áudios ou multimídia.


Confira como foram os outros encontros do módulo:






0 visualização
bottom of page