Discutindo uma experiência humana - como eram os ginásios vocacionais em São Paulo?


A experiência dos colégios vocacionais, lá nos anos 1960, já era inovadora e à frente de seu tempo. Estimulando a criatividade e o pensamento crítico – jargões que atualmente aparecem com muita frequência em diversas iniciativas educacionais –, o projeto pedagógico pensado por Maria Nilde Mascelani e sua equipe foi o responsável por incutir nos estudantes uma visão cidadã de mundo e que valoriza a democracia.


Em "Vocacional - uma aventura humana", o cineasta Toni Venturi volta à escola onde estudou e conversa com ex-professores e ex-professoras, e a equipe que participou do projeto – ativo de 1962 a 1969. Nesse retorno, Venturi relembra a estratégia pedagógica, a presença das artes e da cultura no currículo da escola e a liberdade de pensamento incentivada pela equipe docente.


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O cineasta participou no último sábado, 13, de encontro no curso Cinema e Jornalismo: luzes sobre São Paulo, promovido pelo Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD), e do qual a OBORÉ é parceira estratégica.


"O Vocacional foi uma coisa extremamente marcante para nós. Essa vivência precisava ser contada", afirmou Venturi. O filme, lançado em 2011, traz a participação de ex-alunos, muitos deles que se enveredaram pelo ramo das artes e da comunicação, tornando-se músicos, jornalistas, cineastas e artistas. No depoimento de alguns alunos, essa escolha de carreira está atrelada à possibilidade que tiveram de conhecer diferentes áreas do conhecimento de forma ampliada.



O cineasta Toni Venturi.

Os colégios vocacionais possuíam aulas mais práticas como marcenaria, costura, economia doméstica e culinária. Além disso – e quando ainda poucas pessoas falavam a respeito – havia aulas de audiovisual. Esse setor poderia funcionar como uma pequena semente, vinda da vontade de documentar a experiência em vídeo. Cerca de quatro anos antes de seu falecimento, Maria Nilde Mascelani reuniu os ex-alunos da área da comunicação com uma proposta de documentário que não vingou. Toni Venturi chamou para si essa tarefa, realizando o filme anos depois.


"A Maria Nilde foi uma liderança. Todos os grandes projetos têm uma liderança, mas por trás sempre tem [também] uma grande equipe", disse o cineasta. No filme de Venturi, Maria Nilde aparece apenas em imagens de arquivos gravados, onde ela apresenta as metodologias da escola e como funcionava o projeto, diferente do restante dos depoimentos, colhidos especificamente para o documentário.


"Não era o mundo digital, não se filmava com o celular [naquela época]. Eu não falei com ela. Tive a possibilidade de usar áudio, mas estávamos no mundo do k7. Eu não fiz porque ninguém esperava a partida dela [de forma] tão repentina", conta Venturi.

O jornalista Oswaldo Colibri, mediador do curso, questionou Venturi sobre de que forma foi possível realizar um projeto como o dos ginásios vocacionais, dado o contexto político e o próprio modelo de educação proposto.


"Como ela conseguiu? Com todos os defeitos [os políticos daquela época] eram democratas. Porque o que veio depois foi a ditadura", respondeu o cineasta. No pós-guerra, entre 1945 e 1969, Venturi aponta que houve um período de mais liberdade e que justamente esse contexto possibilitou a criação de projetos voltados para pensamento e reflexão para a população brasileira.


O que veio depois, e que marcou o fim do projeto, foi a ditadura militar, também bastante presente no filme de Venturi. Os idealizadores do Vocacional foram considerados subversivos pelo sistema vigente, que perseguiu e prendeu Maria Nilde Mascelani e encerrou as atividades da escola em 1969 com a justificativa de que a escola não obteve os retornos esperados de um projeto experimental.


"Era uma escola pública que se destacava das outras escolas tradicionais. O projeto militar jogou a escola pública lá para baixo", afirmou o cineasta.

Aos participantes do encontro, Venturi afirma que há a possibilidade de um novo filme sobre o vocacional, desta vez um que não seja feito por ele. Muitos dos ex-professores estão em idade avançada, alguns deles já morreram, e para o documentarista um novo filme, com recursos e perspectiva dos tempos atuais, pode reforçar a grandeza do projeto e ajudar a divulgar um pouco mais o projeto.



Apesar disso, afirma que o filme que fez há onze anos ainda tem seu valor e é muito representativo."Os filmes envelhecem? Sim, mas ganham o sabor de uma época.


Um filme bom é contemporâneo, mesmo que tenha envelhecido", disse.

Na próxima semana, os estudantes vão discutir o documentário Mapas Afetivos, que traz relatos de pessoas com lembranças significativas relacionadas a ruas e bairros de São Paulo. A série "Enquadro 5x5" também será tema de discussão. Os episódios de curta duração acompanham personagens de diferentes locais de São Paulo e como eles se relacionam com os territórios onde vivem.


Sobre o curso

Neste novo curso, os alunos serão convidados a assistir filmes, participar de debates, reflexões e entrevistas coletivas com especialistas sobre as obras cinematográficas e as temáticas envolvidas na programação, além de produzirem, durante o percurso, trabalhos jornalísticos que deverão ser publicados em diferentes formatos e plataformas (textos, vídeos, áudios, entre outros).


O curso é realizado pelo Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão de Políticas Públicas e Sociais (IPFD), em parceria com a OBORÉ Projetos Especiais, e conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo.


Cronograma

6, 13, 20 e 27 de novembro e 4, 11 e 18 de dezembro, 15, 22 e 29 de janeiro, sempre aos sábados, das 10h às 12h30 – Encontros (Discussão + Palestra + Entrevista coletiva)

18 de dezembro a 29 de janeiro – Organização em grupos e produção das peças (reportagens, documentários, produtos audiovisuais e/ou multimídia) pelos alunos

29 de janeiro a 7 de fevereiro – Publicação dos materiais.

Para dúvidas ou mais informações escreva para cinemaejornalismo@ipfd.org.br.

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