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A apuração é central no jornalismo, garantem Ana Aranha e Sergio Gomes

Aula inaugural da terceira edição do curso Cinema e Jornalismo - Luzes sobre São Paulo contou com a presença da repórter e documentarista Ana Aranha, da Repórter Brasil. O encontro aconteceu no último sábado, 14, e reuniu cerca de 80 participantes de todo Brasil. 



Para além da apuração de fatos, dados e informações, “no Brasil de hoje a gente precisa se preparar para ir aos lugares,  aprender e respeitar os protocolos das comunidades e dos lugares em que vamos”, alerta Ana Aranha, coordenadora de projetos especiais da Repórter Brasil.  


Ana, que tem 15 prêmios de jornalismo na carreira, foi a convidada do primeiro encontro do módulo do Projeto Repórter do Futuro e compartilhou suas experiências no jornalismo com os estudantes. O encontro aconteceu de forma remota e contou com a presença de 80 participantes, todos estimulados à audição prévia do seu mais recente trabalho: o documentário ‘Relatos de um correspondente de guerra na Amazônia’ (2023), produzido em parceria com Daniel Camargos, também da equipe da Repórter Brasil. 


Sergio Gomes, diretor da OBORÉ e coordenador geral do Projeto Repórter do Futuro, abriu o encontro enfatizando a importância e a necessidade de uma boa apuração na profissão: “O repórter só vai a campo sabendo do que se trata. Ele tem que ter o quadro de referência. Se você não souber antes, não tem como fazer a cobertura”.


Para os jornalistas, munir-se de informações antes da cobertura de um evento é o ponto de partida para que se entenda o contexto e conheça as pessoas, independente da cobertura  seja ela de uma entrevista individual, uma coletiva de imprensa, um acontecimento ou uma manifestação de rua, por exemplo. 


“Só se faz jornalismo profissional assim, com apuração. Além do mais, isso garante qualidade no trabalho que você vai fazer”, complementa Sergio, reafirmando que a apuração serve tanto para o exercício da função de repórter (informando-se para construir perguntas e entrevistas mais assertivas) quanto para o resultado final do trabalho feito (produzindo notícias com informações de qualidade).


Ainda durante o encontro, Ana Aranha compartilhou com os estudantes experiências valiosas que a fizeram, e ainda a fazem, experimentar novos formatos na profissão. “Quando migrei da revista para a cobertura online, vi que meus textos eram longos para internet. O produto final não é aquilo que a gente gosta, é aquilo que as pessoas leem, o que impacta no final. Eu gostava muito dos meus textos, mas as pessoas não liam. E a comunicação é isso, quando se tem o leitor”, garante.


Ana, que já trabalha com plataformas multimídias, afirma que há um grande potencial de comunicação em diferentes formatos e meios, bem como nos documentários, e que o jornalismo impresso limita muito a forma como as informações são apresentadas. “Os documentários e filmes brincam com os formatos. No jornalismo impresso não tem isso, eles formatam muito. E a internet é um lugar em que conseguimos experimentar. Posso comunicar a minha pauta em diferentes formatos no mesmo espaço, com fotos, vídeos, textos, artes, infográficos”, acrescenta.


Neste contexto, a jornalista diz que algumas perguntas podem colaborar na função de repórter. São elas: “Como fazer com que o seu leitor, ou espectador, te acompanhe? Em qual formato é possível comunicar tudo aquilo que você cobriu na sua investigação, com o compromisso com o que você fez?”


Sobre o gênero documentário, Ana destaca que ele “propõe uma sedução ao espectador; este formato prende e a ideia é que você mergulhe e seja tomado por ele. Que ele te pegue e você não consiga sair dele.” E completa:  “o documentário é uma grande riqueza a ser explorada, mas também uma grande dificuldade”. Faz parte do desafio se questionar:  “Como a gente se apropria destes formatos no jornalismo? Como usar essas ferramentas do cinema com ética e responsabilidade?”.


Segurança e responsabilidade na profissão 


“A brutalidade da violência no Brasil é muito mais forte para as fontes do que para os jornalistas”, afirma Ana Aranha, que dirigiu, com Daniel Camargos, o videodocumentário ‘Relatos de um correspondente de guerra na Amazônia’. A obra trata da cobertura dos assassinatos do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.


“Não podemos nos colocar em uma situação de mártir. Você é responsável por fazer uma avaliação de risco em que você pode se expor e expor a sua fonte. Avalia, conversa com ela”, aponta, completando que as pessoas, às vezes, não têm a dimensão do risco em que elas estão se colocando.


“Como repórteres a nossa função é para causar um impacto positivo, se não for pra isso, não publique”, afirma a repórter, revelando que já deixou de publicar notícias em que colocaria em risco uma comunidade. “Eu não publiquei por um princípio ético, pela exposição das pessoas”.


O curso


Com o objetivo de jogar luz sobre a cidade de São Paulo, o curso propõe audições prévias de obras cinematográficas, encontros com diretores, produtores, repórteres ou especialistas para conversar sobre as obras, conferências de imprensa e produção de reportagens pelos estudantes.  


“Este curso é para desenvolver a função de repórter. Depois de muitos anos e das experiências vividas, entendemos que é impossível ensinar jornalismo, mas é possível criar o ambiente onde haja o aprendizado do jornalismo. Porque não há jornalismo sem equipe”, afirma Sergio Gomes, ao fazer do curso um espaço de trocas, práticas e construção do bom jornalismo.


2º encontro


O próximo encontro do curso será no sábado, 21, e contará com a presença da cineasta Maria Farkas. O convite de audição prévia é da obra “Causando na rua”, disponível na plataforma da SPcine.


Causando na rua (2º episódio)

Direção geral: Tata Amaral. Direção: Maria Farkas e Caru Alves de Souza. (2016, Documentário, 26 min.)


Sinopse: Trajetos de rios submersos. No passeio, temas como a revitalização destes rios e a abertura deles é discutida com os participantes do passeio e convidados. A ação se passa no bairro da Bela Vista, um dos mais antigos bairros da região central de São Paulo, e a origem do grupo é na Vila Indiana, zona oeste da cidade. Elenco: Coletivos - Viajou sem Passaporte, 3NÓS3, TUPINÃODÁ, Iniciativa Rios e Ruas, OPNI, Paulestinos, Galeria Gruta, Slow Food Como Como, Casadalapa, Sansacroma, Coletive Friccional, Companhia Pessoal do Faroeste, Pretas Peri, RAP Guarani Mbya.


Maria Farkas é formada em Cinema e Vídeo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, trabalha desde 2001 com cinema e televisão, sempre na área de direção, passando por diversas produções, tais como "Carandiru", de Hector Babenco; "Cidade Baixa" de Sérgio Machado; "Terra Vermelha" de Marco Bechis; "Hoje" de Tata Amaral e "Praia do Futuro" de Karim Aïnouz. Recentemente co-dirigiu as séries "Vizinhos" e "Três Teresas", com Luiz Villaça para o canal GNT, além de ter sido uma das diretoras da série "Que Monstro Te Mordeu?", de Cao Hamburger e Teo Poppovic, para a TV Cultura.


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